TPM - Telepatia, Premonição e Milagre

Certa vez trabalhei com uma equipe que cunhou a seguinte pérola: "Pra trabalhar aqui é preciso ter TPM - Telepatia, Premonição e Milagre". Isso porque a equipe quase sempre trabalhava em duas cidades, tinha que prever as especificações de projeto que ainda não tivessem sido especificadas e por último fazer o Milagre acontecer. Os caras eram bons MESMO. Depois de alguns anos, hoje tive pistas de que posso ter encontrado outra equipe assim, ainda que em fase embrionária...

Guardadas as devidas proporções, vamos aos fatos. Faculdade técnica, aula de humanas. Não poderia haver combinação mais explosiva. 60% da nota do semestre viria de um seminário sobre parte do livro Gestão à Brasileira. Trabalho em grupo. Grupo de 8 pessoas. Además, já que a gestão é à brasileira, o prazo para confecção do trabalho também o é. Ok, tá certo que tivemos um adiamento de uma semana por motivos de força maior, mas uma semana a mais em um prazo irrisório, continua irrisório. Mas somos brasileiros e não desistimos nunca!

Eu sou um cara relativamente sortudo, de forma que pude escolher trabalhar com mais 7 pessoas de extrema competência. Tanto é que em todas as fases do projeto trabalho, todos estavam efetivamente envolvidos e produzindo, o que é mais incrível.

Nesta fase apareceram os primeiros telepatas. Seres superiores capazes de fazer o trabalho sem terem lido o texto base, apenas pegando as idéias telepaticamente dos que leram. Os telepatas restantes surgiram na hora de fazer os slides da apresentação, pois fizemos em pedaços meticulosamente encaixáveis, telepaticamente, óbvio!

Mas pessoas diferentes tem necessidades diferentes. Com 8 pessoas trabalhando em partes separadas, cada um utilizou sua suite Office® preferida (2000, 2003, 2007...). Só mesmo um trouxa inventou de usar aquela porcaria do Open Office, aquela merda.

Eis que para a surpresa de todos (inclusive do trouxa que vos fala), certa suite de escritório proprietária mostrou-se incompatível consigo mesma. Como assim Bial? Calma que o tio explica. Primeiramente a versão da SOP (suite office proprietária) onde faríamos a apresentação, especulava-se ser a 2000 (eu não fui conferir). Segundamente, eu não sei por que, eu não sei como e eu não me importo, quando tentávamos salvar na SOP 2007 um conjunto de slides no formato SOP 2003 dava uma merda federal. Era fonte preta que ficava branca, era tamanho de fonte que mudava e não me pergunte, eu não entendo do assunto, os slides com imagens e textos eram transformados em imagens.

Até aí tudo bem (pelo menos pra mim que não tive que refazer slide). Montaram uma operação de guerra com pacotes instaláveis via pendrive, cds e tudo mais.

Quarta feira tensa. Organicamente muito ruim pra mim. Meu dia foi começar a ficar suportável depois das 13:00hs. O que sobrou de mim, repassava o texto, fazia resumos e torcia para chegar inteiro até o momento da apresentação. Meu dia de vidente. Levo note, não levo note? Vou levar o Eee. Maldito peso extra! Outro vidente levou seu note com software proprietário. Os outros confiaram na operação de guerra com tripla redundância: CD, pendrive com SOP instalável e MP4.

Eis que aos 45 do segundo tempo descobrimos que a besta que vos fala replicou 3 textos em um slide. Vamos alterar, moleza! Infelizmente a vesão da SOP do outro vidente era mais recente que versão dos arquivos. Putz, o que é mesmo interoperabilidade? E INTRAoperabilidade? E Retrocompatibilidade? Que pena, pelo visto as SOPs em questão desconhecem todos esses conceitos. Resultado: Fodeu. Não me pergunte como, texto foi salvo como imagem, fonte trocou de cor e o escambau.

Já quase conformados com a idéia de ter que reformatar todo o trabalho em 15 min, resolvi abrir o arquivo em formato proprietário com aquela bosta de Open Office. Resultado: Milagre! O Open Office conseguiu recuperar boa parte do trabalho. Daí, 3 ou 4 ajustes e os slides estavam corrigidos. Só tinha um pequeno problema. A máquina onde faríamos a apresentação não entendia ODF, e salvar no formato da SOP destruía a formatação. Ah Eee, você tem saída VGA! Despluga, pluga, nada. Reboot plugado e tã-dãm! Simplesmente funciona. Eee plugado no projetor e funcionando.

Moral da história: Open Office + Eee = Trabalho apresentado, nota garantida. Até o próximo semestre (nesta matéria).

Não me pergunte porque foi tão difícil dominar uma suite office. Não me interessa. Eu não quero ler um manual de 6000 páginas pra poder fazer um conjunto de slides simples, somente com texto e imagens, sem efeitos. Não é isso que os defensores do software proprietário bradam? Que simplesmente funciona? Que o Open Office é uma merda? Ok, pode até ser, mas pelo menos é uma merda que fede, que faz que se propõe a fazer. Não me interessa qual versão roda na faculdade ou na sua casa. Eu quero poder compartilhar arquivos sem surpresas com meus 7 colegas de grupo, cada um com o software que melhor lhe servir. Eu quero interoperabilidade. Não me interessa se o Open Office não é a borboleta coloria faiscante sueca que você quer. Eu quero que simplesmente funcione. Que seja simples. Que seja intuitivo. Que eu não precise perder tempo refatorando slide. Tempo esse que eu poderia estar estudando Cálculo, Grafos ou o que mais fosse.

Não me interessa se você me chamar de burro por não conseguir fazer slide em suite sofisticada. Eu não quero ter que reservar uma área do meu cérebro para descobrir como usar um software de fazer slide, pra aula de humanas (com o devido respeito). Eu quero gastar meu cérebro entendendo como se comporta uma derivada parcial com n variáveis num espaço de m dimensões, pra entender e argumentar quando um livro de cálculo trás curvas de níveis desenhadas ao contrário. Eu quero gastar meu cérebro entendendo que apesar de uma referência existir e ocupar memória, um operador nunca opera sobre ela.

Não faço Ciência da Computação pra aprender a ser operador de planilha ou arrastador de caixinha colorida.

Creio que devemos umas cervejas ao pessoal do Open Office pelo excelente trabalho de engenharia reversa sobre formatos proprietários. Você poderiam dar umas aulas para o pessoal de certa empresa de software, pra que eles aprendam a ser mais compatíveis com eles mesmos. A partir de hoje vocês ganharam por tempo indeterminado um banner (feio que dói) no blog, na faixa.

Ao pessoal do grupo meus sinceros agradecimentos por um trabalho bem feito e bem apresentado. É sempre uma honra poder trabalhar com os melhores.