O monge e o macaco

February 15, 2009 · Posted in Contos, Perl 

Era uma vez um rapaz que gostava de programar. Ele descobriu a programação por acaso e se encantou com a idéia de transformar as idéias na sua cabeça em software para que outras pessoas pudessem usar. Então ele começou uma jornada em busca da linguagem que fosse capaz de expressar exatamente o que ele pensava.

Ele começou com Pascal e aprendeu que com ela poderia iterar e recursar, modularizar e estruturar. E viu que isso era bom, e estudou mais e mais, e naquela época ele foi feliz. Porém o excesso de restrições começou a travar o seu pensamento e nessa época ele foi infeliz.

Então ele decidiu que queria algo que melhor e procurou Java. E então ele aprendeu que poderia orientar a objeto sem se preocupar com a coleta de lixo. E viu que isso era bom e nessa época ele foi feliz. Mas chegou um dia que o excesso de camadas começou a travar o seu pensamento e nessa época ele foi infeliz.

Então ele decidiu que se quisesse ser um programador de vedade teria que aprender C e Assembly. Ele estudou e estudou, e descobriu que podia fazer tudo que sua mente imaginava, inclusive besteiras. E nessa época ele foi feliz. Ele tinha para si todo o controle da máquina e assumiu a responsabilidade sobre esse poder. Ele percebeu que poderia ter o que tinha em Pascal, com C e ele foi feliz. Ele percebeu que poderia ter o que tinha em Java, com C++ e ele foi feliz. E ele percebeu que poderia ter o que quisesse se estivesse disposto a pagar o preço em Assembly, e ele foi muito feliz.

Mas algo faltava que ainda o incomodava e ele não sabia explicar o porquê. Tentou escrever um programa que explicasse o que faltava, mas não conseguiu resolver. Então, nessa época, ele foi infeliz. Ele se desesperou, e procurou apender todas as linguagens do mundo, mas nenhuma era suficiente para explicar o que estava faltando. Tentou VB, C#, Python, Lisp e nada. Nem mesmo Brainfuck conseguia explicar o que faltava. E ele era infeliz, e até a sua infelicidade era incompleta. Ele pensou em desistir, mas até esse pensamento era incompleto.

Então um dia ele conheceu um monge e esse monge lhe apresentou uma nova linguagem não muito conhecida. Ele viu mas não ficou interessado, pois nenhuma linguagem até ali havia mostrado o que lhe faltava. Mas o monge insistiu e ele aceitou, e então ele começou a estudar Perl.

Então ele viu que a linguagem era cheia de símbolos e construções estranhas e aquilo não era bom. Era feio e esquisito, e ele continuava sem saber o que lhe faltava. Sua mente já estava cansada e seus pensamentos minguavam, mas algo o impelia a continuar e estudar.

Um dia, ele não sabe qual, aconteceu algo e ele não soube o quê. Veio um estalo e tudo se tornou claro. Seu mundo de sombras teve luz. E ele não sabia explicar o que era, mas isso era bom e ele foi feliz.

Então ele procurou fazer um retrospecto de seu caminho até ali para descobrir o que lhe acontecera. Ele olhou para si e descobriu que podia ver coisas que não via antes. Ele olhou para Pascal e resolveu problemas que não tinham solução naquela época. Ele olhou para Java e entendeu quais eram as camadas necessárias e quais eram as barreiras. Ele olhou para C e percebeu que a linguagem era tão poderosa que ele deixou-a amarrar suas mãos e prender sua mente, e ele entendeu como utilizar por completo esse poder a seu favor. Ele olhou para VB, C# e todo o .NET e aceitou que era melhor mesmo deixar pra lá… Então ele olhou para Lisp e viu como realmente eram escritas as linhas de código do universo, e que tinha Perl colando as coisas.

Então ele olhou para Perl, e notou que os símbolos estranhos eram só atalhos para abstrações e que a linguagem era muito mais que isso. Era grande, poderosa, flexível e bela, muito bela.

E foi aí que ele descobriu o que lhe faltava, e isso não era uma linguagem de programação. Perl lhe trouxe uma nova forma de olhar para o mundo e perceber coisas que antes ele não percebia. Perl o iluminou e libertou sua mente, e ele entendeu que até ali tinha sido apenas um macaco, repetindo comandos e algoritmos sem entender o seu real significado. Não importava qual era a linguagem, ele era somente um macaco, e antes desse estalo, mesmo com Perl ele não compreendia. Mesmo com Perl ele continuava a ser um macaco, e teria sido assim se ele não tivesse compreendido. Não importaria qual a nova linguagem, ele continuaria a ser um macaco.

Ele percebeu que sua mente estava escravizada por mecanismos que a obrigavam a não pensar, e quanto mais linguagens ele aprendia, mais e mais mecanismos apareciam para oprimir e degradar seu pensamento.

Então agora finalmente ele havia descoberto que o que lhe faltava não era uma tecnologia, mas sim era libertar a sua mente. Ele tornou-se um monge. E ele se libertou dos mecanismos de opressão, e todas as linguagens que ele conhecia passaram a se completar e fazer sentido. Ele não mais programava, mas falava Perl, então ele foi capaz de expressar completamente seus pensamentos em qualquer linguagem, e assim ele foi finalmente feliz.

Comments

41 Responses to “O monge e o macaco”

  1. Luciana on February 15th, 2009 16:24

    Apaixonado como nunca vi, aberto e confesso…

    “tudo está conectado”

  2. thiago on February 15th, 2009 16:37

    pois eh.. isso ate parece historia da china antiga.. so faltou chutes e ponta pes.. rs
    ate fiquei interessado.

  3. Thiago Silva on February 16th, 2009 17:05

    Perl? Mesmo?

  4. O monge e o macaco « Claudio Novaes on February 17th, 2009 12:42

    [...] Fonte : Blog do Blabos de Blebe [...]

  5. Leonardo on February 17th, 2009 13:00

    corrija o erro de ortografia: ” … todas as lingugems que ele …”

    Texto bacana =)

  6. Henrique on February 17th, 2009 13:00

    Putz… Perl nem linguagem é.

  7. Leonardo Saraiva on February 17th, 2009 13:22

    Nossa, perl? hahaha

  8. duard on February 17th, 2009 13:31

    Paia !

  9. [...] aqui o link para o texto na [...]

  10. Álvaro Guimarães on February 17th, 2009 14:09

    Perl? Só não entendi essa parte!

  11. Daniel Hoisel on February 17th, 2009 14:49

    Se ainda fosse Ruby…

  12. Júlio Cesar on February 17th, 2009 15:46

    Bom, aguardo o sorteio e espero poder ganhar uma das assinaturas!

  13. vits on February 17th, 2009 15:50

    estória bacana…
    quase uma fábula,
    passa um corretor ortográfico que ficará “da hora”.

  14. luiz on February 17th, 2009 16:16

    Se ainda fosse ASP…

  15. Pablo on February 17th, 2009 16:37

    Texto bem escrito, que nos lembra de longe um texto bíblico (a parte de “e ele viu que era bom” ficou realmente engraçada).

    Adorei a parte onde as linguagens parecem-se com “óculos” através dos quais traduzimos nossos pensamentos. Perl, como todas as outras, é mais uma perspectiva.

    Só o desfecho que não ficou muito bom, pois o comportamento de escolher uma linguagem como “iluminada” em detrimento de todas as outras não é diferente do comportamento de um fanático religioso que vê em sua própria religião “A” verdade.
    No final das contas, esse comportamento acaba sendo um encarceramento auto-imposto e não uma libertação ;-)

  16. Araujo on February 17th, 2009 17:21

    Texto tosco, tente fazer algo mais produtivo.

  17. blabos on February 17th, 2009 19:10

    Parabéns FZero. Você foi o primeio e único esperto a ser moderado, por não conseguir escrever um comentário civilizado.

    Antes de você a moderação era meramente um ajuste fino anti-spam. Você acabou de inaugurá-l como dispositivo de bloqueio. :)

  18. Eder on February 17th, 2009 19:16

    Para os que não entenderam porque “Perl”.
    Se você for pesquisar sobre o assunto, vai usar o que? Google? Ah tah.. Agora usa o Google e pesquisa “em que ele é concebido”!…

  19. sombriks on February 17th, 2009 19:28

    eu pogamu em peu…. eu pogamu em peu…

    hahahahah…

  20. blabos on February 17th, 2009 19:43

    @Araujo:

    Comentário tosco. Tente ler algo mais produtivo…

  21. blabos on February 17th, 2009 19:46

    Ele não escolheu uma linguagem como “iluminada”. Depois que ele venceu os próprios preconceitos, ele foi capaz de ver outras qualidades nas outras linguagens e tornou-se um programador melhor em cada um delas.

  22. blabos on February 17th, 2009 19:47

    @Henrique:

    Tem razão. Perl é uma filosofia de vida :)

  23. blabos on February 17th, 2009 20:09

    Obrigado Leonardo! Fico te devendo uma cerveja no próximo ES.

  24. [...] O monge e o macaco @ Blog do Blabos de Blebe [...]

  25. Gustavo Henrique on February 17th, 2009 22:52

    Muito legal o texto. acredito que se houvesse uma continuação, seria +/- assim:
    “…assim ele foi finalmente feliz…”
    …até o dia em que ele percebeu que tal felicidade era apenas um estado momentâneo de espírito. Que a verdadeira felicidade encontra-se nas coisas mais simples da vida. Eis então que ele ouviu falar sobre python. Descobriu que poderia produzir maravilhas de forma mais ágil e sem xingamentos.
    Agora sua vida havia mudado. Conceitos foram quebrados. Ele aprendeu que apesar de tudo que já havia visto, agilidade, organização, poder e simplicidade, realmente poderiam caminhar juntas. Então, nesse momento, ele descobriu a verdadeira felicidade.

  26. SmokeMachine on February 17th, 2009 23:19

    Ótimo texto! Conseguiu traduzir bem a agonia anterior ao estalo, a agonia da mente aprisionada.
    Perl é uma das maiores linguagens libertadoras de mente que eu já conhecí… Claro, qualquer linguagem (qq coisa) pode libertar sua mente. Mas existem linguagens mais propicias a isso.
    Agora, lendo essa estória, parece que eu já ví isso acontecer… e mais de uma vez!

  27. blabos on February 18th, 2009 00:24

    Bom, Em primeiro lugar agradeço pelas opiniões distintas.

    Como escritor, você sabe que está tocando (ui!) o leitor, quando recebe feed-back com opiniões contrárias às suas. Isso significa que alguém que pensa diferente, parou pra ler o que você escreveu. Opiniões divergentes das minhas são muito bem vindas.

    Por outro lado, agressões, xingamentos e outros tipos de gracinha serão (como foram) ignorados. Quem quiser fazer isso fique à vontade para xingar a Sra, sua imagem no espelho ;)

    Eu não sei como anda o ensino médio ultimamente, mas na minha época ensinava-se Português desde a alfabetização até à faculdade. Infelizmente parece que o pessoal que andou sendo moderado matou essas aulas.

    Mas vamos lá, me dá a sua mãozinha que o Tio Blabos explica:

    Traduzindo (conforme comentários moderados), o texto é um conto, no qual é narrada uma história sobre uma busca, que finda quando o personagem principal descobre que a resposta não era uma linguagem de programação, mas um nova forma e olhar o mundo.

    Tem gente revoltadinha me atacando porque eu estou falando bem de algumas linguagens. Ok, tudo bem, eu devia ter avisado que o blog é para quem tem um mínimo de cultura.

  28. [...] é uma linguagem tão flexível, que com ela podemos escrever até um conto: #!/usr/bin/perl -l *Im = *Monkey; Belive_me… Yes, $Im = "Monkey"; my @prog_lang = [...]

  29. Marcio Andrey Oliveira on February 18th, 2009 09:26

    Gostei do conto, mas o final proposto pelo Gustavo Henrique é muito melhor ;) .

    Para ser excelente mesmo, só se ele terminasse o conto usando o C.

  30. ijuy on February 18th, 2009 11:32

    “… aprendeu Perl com Pai Mei, mas até hoje ninguém entende seus scripts. Em dois meses, ele também não. Em seis, nem o próprio Pai Mei…”

    xD

  31. blabos on February 18th, 2009 13:11

    @ Marcos & Gustavo Henrique:

    Fiquem à vontade, os textos do blog estão sob esta variante da CC: http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.5/legalcode

    Portanto, divirtam-se e me enviem os links das suas variantes.

    Já os direitos sobre quaisquer outros recursos no site pertencem aos seus respectivos donos.

    Abraços

  32. kleiton on February 18th, 2009 14:47

    Perl…e se fosse FLEX!!!
    hehehheheh
    =)

  33. Rafael Mezenga on February 18th, 2009 22:04

    I´m prouid

  34. Rafael Mezenga on February 18th, 2009 22:07

    I´m proud to be a perl monger! I´m proud to use perl to pay my bills.

  35. [...] (baseado no post “O monge e o macaco, escrito em Perl” que é baseado no conto “O monge e o macaco“) [...]

  36. Fabiano Shark on February 23rd, 2009 11:51

    Sou programador web então só falo PHP MySQL XHTML CSS e JavaScript mas mesmo assim gostei do conto, PHP usa muito Perl ;)

  37. blabos on February 23rd, 2009 12:03

    Na verdade o PHP é uma espécie de descendente do Perl. O cara que criou o PHP estava com umas dificuldades com o pré-histórico Perl 4. Aí resolveu o que tinha que resolver direto no apache, nasceu então o PHP.

    PHP é facílimo de aprender. Foi minha primeira e por muito tempo única linguagem web. Eu resisti muito a aprender Perl, mas depois que eu vi certas facilidade, passei a dar mais atenção à linguagem até que finalmente comecei a entender as coisas.

    Acho que o ponto crucial foi quando eu precisei de um spider e não tava saindo em PHP, aí me mostraram isso http://search.cpan.org/~petdance/WWW-Mechanize-1.54/lib/WWW/Mechanize.pm.

    Dá uma olhada no site do CPAN, de repente vocÊ fica interessado, de repente, não…

  38. Luma on February 24th, 2009 09:36

    Caramba muleque mandou bem no texto, inclusive eu já tinha ouvido essa história, hehehehe.

  39. Mauricio on March 1st, 2009 21:04

    Bom demais..
    E cômico; a parte do ‘era melhor deixar pra lá mesmo’ foi ótima!
    kkkkkkk

    Abração!

  40. Life On The Fly » O monge e o macaco on March 1st, 2009 21:08

    [...] Um dos melhores posts que já vi sobre programação. Criativo e bem-humorado. Atente para o comentário final sobre algumas lingüagens proprietárias.. ;-) Fonte: Blog do Blablos de Blebe [...]

  41. thunder on March 2nd, 2009 01:31

    Muito bom ! Pena que o monge não começou com BASIC, ainda bem que ele chegou ao Perl.
    Resolução de 2009 : aprender Perl…

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